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15/03/2018

Nós, Morte.

Hoje eu vi e toquei num morto. Não foi o primeiro. Não foi a primeira palidez, o primeiro olhar vazio, nem a primeira vez que procurei um movimento que já não existia no peito de alguém.

Não é fácil, mas é "lidável". Aprende-se a lidar, porque a morte vem, mas a vida à volta não para, e com ela, não acabam as necessidades e os apelos dos outros. E então nós também não podemos parar. Parece que adquirimos uma frieza, mas na verdade apenas vestimos uma capa impermeável às gotas de chuva geladas que vêm da Morte. 

E é assim que racionalizamos. Sobre ser o melhor, porque a pessoa já estava mal, e em sofrimento e só iria piorar e assim evitou-se uma certa perda de dignidade que chega com a doença, com a velhice, com a dependência total dos outros; especialmente quando se está ainda totalmente consciente e orientado. E sim, há verdade nessa versão da realidade. Nestes casos.

Contudo, hoje houve uma primeira vez. Pela primeira vez, eu tive de executar manobras de reanimação na pessoa. Ele já estava morto, mas tinha de ser. E foi um choque, e um senso de inutilidade. 

Eu senti as costelas dele cederem sob as minhas mãos, como galhos secos. O peito dele afundou. E eu achei que lhe havia roubado a sua última dignidade, violado o seu corpo morto quebrando-o sabendo que não iria conseguir trazê-lo de volta.

Na morte não há dignidade. Somos apenas bonecos vazios feitos de uma borracha esquisita algo difícil de manusear, cujas secreções e interiores se escoam pelos orifícios, que por isso têm de ser tapados diligente e insensivelmente; cuja boca se tem que fechar com adesivo, ou cola, ou ligadura, ou o que quer que seja porque senão ficará aberta e ridícula de forma praticamente irreversível por causa do rigor mortis. É curioso e fascinante que ao fazermos isto, somos insensíveis e simultaneamente a prestar-lhe uma homenagem; a ele, que já nem está ali. 

A morte, tal como a vida, é contraditória e confusa.

E nós, na morte, somos bonecos. Somos ridículos. Já não somos.

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